A divergência entre a equipe econômica do governo e setores da base aliada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou novo contorno nesta semana, após a divulgação de proposta que sugere a redução da taxa Selic e a criação de um mecanismo de coordenação entre política fiscal e monetária.

O economista André Lara Resende, que havia publicado um artigo no fim de setembro, voltou à pauta ao ser mencionado como possível interlocutor de Lula em encontro marcado, segundo colunista do O Globo. No texto, Lara Resende defende a diminuição gradual da taxa Selic, de 13,75 % ao ano para cerca de 7,5 % em doze meses, e propõe a instituição de um instrumento que estabeleça metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária. A proposta recebeu apoio de figuras ligadas ao PT, como Gleisi Hoffmann, que a qualificou como “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”, e José Sérgio Gabrielli, ex‑presidente da Petrobras, que celebrou o “fim do pensamento único” sobre teoria monetária e destacou a necessidade de atenção especial a um mecanismo mais amplo que o Conselho Monetário Nacional.

A reação dos mercados foi imediata. Investidores interpretaram a possibilidade de adoção da medida como um risco à autonomia do Banco Central, o que provocou queda no Ibovespa – que registrou a sexta queda consecutiva, recuando 1,42 % – e elevação do dólar, que avançou 0,79 % para R$ 5,48. Os contratos de juros futuros também subiram, com a taxa DI para janeiro de 2029 passando de 14,962 % para 15,070 % e a de janeiro de 2031 de 15,272 % para 15,370 %. A desconfiança já vinha se acumulando desde a vitória de Lula nas eleições, quando parlamentares e dirigentes petistas descartaram ajustes fiscais, argumentando que o “tesouraço do Flávio” havia sido derrotado nas urnas. Na semana de 26 a 30 de outubro, o Ibovespa recuou 18,12 %, a maior queda semanal desde março de 2020, e as empresas listadas na B3 perderam cerca de R$ 963 bilhões em valor de mercado, segundo a consultoria Elos Ayta.

Economistas também criticaram a proposta de Lara Resende. Entre os apontamentos, destacam‑se a pressão sobre as expectativas de inflação, o aumento dos juros de longo prazo e o risco de crise cambial decorrente da perda de confiança dos investidores. O professor John Cochrane, da Universidade Stanford, ressaltou que a viabilidade da ideia dependeria da credibilidade de superávits fiscais sustentáveis e de instituições capazes de manter o compromisso ao longo do tempo.

Dario Durigan, ministro da Fazenda, negou a existência de reunião entre Lula e Lara Resende e afirmou que o “tabelamento de juros” não está na agenda presidencial. Em pronunciamento na terça‑feira (3), Durigan tentou conter o nervosismo dos investidores, dizendo que não há “precipitação” sobre o que o presidente possa dizer, pois “não há agenda colocada”. O ministro reiterou que, nas conversas que tem mantido, não há assunto que justifique o medo do mercado.

Para tentar acalmar o cenário, o presidente deve se pronunciar no domingo (8), conforme informação do Estadão, com a intenção de reafirmar o compromisso de cumprir metas fiscais no próximo mandato e de manter as promessas de campanha sem incorrer em “estelionato eleitoral”.

O Boletim Focus, divulgado na terça‑feira (3), elevou as projeções para o dólar, de R$ 5,05 para R$ 5,34, para a Selic, de 13,25 % para 13,50 %, e para o IPCA, de 5,19 % para 5,22 %. Na sequência, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em sua reunião de quarta‑feira (4), manteve a taxa Selic em 13,75 % ao ano, decisão unânime que refletiu a apreensão diante da deterioração das expectativas econômicas.

Analistas apontam que o silêncio de Lula sobre o ajuste fiscal e os rumos da política econômica tem ampliado a incerteza. Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, afirmou que o governo “não parece estar nem um pouco disposto a pacificar o mercado” e que “o mercado está aguardando” definições para 2027. Um interlocutor do governo, citado pela reportagem, disse que tanto o presidente quanto parte da base do PT têm interpretado as reações dos investidores e os alertas de economistas ortodoxos como “terrorismo”, acrescentando que “Lula não está preocupado e o governo não pode ceder à pressão da Faria Lima”.

Isadora Araújo, economista da GEP Brasil, destacou a ausência de nome para a pasta da Fazenda, a falta de programa de transição para uma nova regra fiscal e a contínua depreciação da taxa de câmbio como fatores de preocupação. Ela espera que um ajuste fiscal seja anunciado, mas ressalta que ainda não está claro se ele virá por aumento de arrecadação, corte de despesas ou fim de renúncias tributárias.

Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, sugeriu que Lula pode estar usando as diversas propostas como “balões de ensaio” para observar as reações de diferentes setores. Segundo ele, o presidente tem ouvido posições variadas – incluindo a de Lara Resende e de representantes do mercado – antes de definir os rumos da política econômica, e que a vitória inédita para um quarto mandato lhe confere margem política para não tomar decisões precipitadas.

O impasse entre a equipe econômica e a base aliada, aliado à volatilidade dos mercados financeiros, mantém o cenário de incerteza que acompanha o início do quarto mandato de Lula.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.