O Rio Grande do Norte realizou, nesta terça‑feira (27), o primeiro embarque marítimo de bovinos vivos do Nordeste, com 2.700 animais partindo do Porto de Natal às 14h com destino à Arábia Saudita. Um segundo navio, já atracado no mesmo terminal, deve transportar 3.700 cabeças de gado ao Líbano, operação que, segundo o secretário estadual da Agricultura, da Pecuária e da Pesca, Guilherme Saldanha, deve movimentar aproximadamente R$ 50 milhões.
Saldanha destacou que a abertura do mercado internacional oferece oportunidade para ampliar a comercialização de bovinos e estimular investimentos na atividade pecuária. “A expectativa do Governo do Estado é que as operações tenham continuidade e contribuam para aumentar a produção pecuária no Rio Grande do Norte”, afirmou. O secretário também apontou que, embora o rebanho estadual, estimado em 1,4 milhão de cabeças, seja pequeno em comparação com outros estados, o acesso a mercados externos pode incentivar a expansão da criação, com investimentos em propriedades rurais, alimentação, manejo e infraestrutura produtiva.
A possibilidade de instalação de um frigorífico no Estado foi mencionada como consequência potencial da ampliação da oferta de bovinos e da formação de uma cadeia produtiva mais robusta, embora Saldanha tenha ressaltado que ainda não há anúncio de investimento ou prazo definido para a implantação de unidade industrial.
A operação contou com a participação de agricultores familiares e pequenos criadores. Nos 30 dias que antecederam o embarque, 13 produtores comercializaram entre um e dez bovinos cada, enquanto quatro venderam entre 11 e 20 animais, totalizando 17 pequenos produtores que, segundo o secretário, foram incluídos para garantir que criadores de diferentes portes tenham acesso às oportunidades do comércio internacional.
Além dos criadores, a exportação envolve empresas de logística, fornecedores de combustível, trabalhadores portuários e prestadores de serviços ligados ao transporte dos animais até o porto. A habilitação do Porto de Natal para exportação de animais vivos cria uma nova alternativa de escoamento para a produção regional. A expectativa da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) é que, futuramente, o terminal possa movimentar mais de 100 mil bovinos por ano, volume que dependerá da demanda internacional, da oferta de animais e da capacidade operacional.
A iniciativa também traz à tona questões relacionadas ao bem‑estar animal e à segurança das embarcações. O navio previsto para o transporte ao Líbano, Dalal F, foi construído em 1980 e adaptado para o transporte de gado em 2016. Levantamento da organização Mercy For Animals (MFA) indica que a embarcação passou por quatro inspeções internacionais entre 2024 e 2025, nas quais foram identificadas 15 deficiências em nove áreas, incluindo segurança da navegação, equipamentos de emergência, condições estruturais e prevenção da poluição. O navio opera sob bandeira da Guiné‑Bissau desde julho de 2023, país incluído na lista negra do Memorando de Entendimento de Paris sobre Controle Estatal Portuário; o histórico de inspeções, porém, não comprova irregularidades na operação atual.
A MFA também questiona os efeitos da atividade sobre o bem‑estar dos bovinos e os possíveis impactos ambientais e urbanos na capital potiguar. George Sturaro, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da MFA no Brasil, descreveu o processo de exportação como “uma sequência de situações estressantes e debilitantes, do transporte terrestre até o confinamento em alto‑mar sob condições extremamente insalubres”. Entre os riscos apontados estão estresse térmico, desidratação, problemas respiratórios e dificuldades de movimentação. A organização alerta ainda para a proximidade do porto a áreas residenciais, comerciais e turísticas, destacando o aumento do tráfego de caminhões, a produção de resíduos e possíveis odores como fontes de incômodo para a população local.
Precedentes de acidentes envolvendo transporte marítimo de animais vivos no Brasil foram citados como referência. Em 2015, o naufrágio do navio Haidar, no Pará, resultou na morte de cerca de 5 mil bovinos e no vazamento de óleo. Em março de 2026, um incêndio a bordo do North Star 1, em São Sebastião, reacendeu o debate sobre a segurança desse tipo de operação.
O Ministério da Agricultura estabelece procedimentos sanitários e operacionais para a exportação de animais vivos, exigindo habilitação das instalações e documentação veterinária. A continuidade dos embarques dependerá da fiscalização e do acompanhamento das operações para garantir o cumprimento das normas aplicáveis, bem como da avaliação dos impactos econômicos, sociais e ambientais associados à atividade.
Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Agora RN. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.
