Com a maioria do Congresso dos Estados Unidos nas mãos da oposição ao presidente Donald Trump desde o início do ano, analistas apontam para possíveis alterações na postura do Executivo americano em relação ao Brasil e aos demais países da América Latina. A mudança de cenário interno pode levar o presidente a buscar maior protagonismo na política externa, sobretudo em regiões onde ainda detém maior margem de ação.

Especialista em relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Natali Hoff, observa que a restrição do Legislativo às iniciativas domésticas de Trump costuma gerar um deslocamento de foco para a esfera externa. Segundo a professora, nos Estados Unidos o Executivo concentra grande parte das decisões sobre conflitos armados, o que pode incentivar o presidente a adotar uma postura mais assertiva fora do continente americano.

Nesse sentido, Hoff indica que a atenção dos Estados Unidos pode se voltar novamente ao Oriente Médio, com a possibilidade de retomar bombardeios de grande escala contra o Irã, tema já mencionado pelo presidente durante a campanha das eleições de meio de mandato. A analista também ressalta que a evolução das conversas para a formação de governo em Israel, após a ausência de maioria clara nas últimas eleições parlamentares, pode influenciar a intensidade da ação americana na região.

Em relação ao Brasil e à América Latina, a expectativa é de uma postura mais pragmática. A professora aponta que, com os democratas controlando o Congresso, podem ser iniciadas investigações que visem limitar questões tarifárias, abrindo espaço para negociações menos ideológicas. A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições brasileiras, combinada com a perda de cadeiras pelos republicanos nas midterms, pode reduzir o apoio de Trump a projetos como o “Escudo das Américas” e a “Doutrina Donroe”, que buscavam alinhar países do hemisfério sob influência norte‑americana.

Representantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à emissora SBT News, sugerem que o revés nas eleições de meio de mandato nos EUA pode levar Trump a moderar a linha ideológica adotada nos últimos dois anos de mandato, diminuindo a interferência nas políticas latino‑americanas.

O economista Igor Lucena, doutor em relações internacionais e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, afirma que o controle democrático das duas casas do Congresso tende a reduzir a capacidade do presidente de avançar em frentes ofensivas, sobretudo no campo comercial. Para o analista, a probabilidade de novas tarifas sobre exportações brasileiras diminui, mas a relação bilateral deve permanecer estável, sem grandes avanços até o final do mandato de Trump.

A possibilidade de Marco Rubio, secretário de Estado e articulador da Doutrina Donroe, ser candidato republicano à presidência em 2028 também pode influenciar a dinâmica das políticas externas dos EUA, já que sua eventual candidatura poderia atender a interesses eleitorais da oposição.

Durante a campanha presidencial brasileira, parlamentares democratas enviaram cartas a Rubio acusando medidas americanas – como tarifas sobre produtos brasileiros e a classificação de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho – de interferência nas eleições. Após a derrota de Flávio Bolsonaro, a oposição questionou o secretário sobre eventual apoio ao senador para que deixasse o país; Rubio negou qualquer envolvimento.

O historiador Lucas de Souza Martins, da Universidade Temple, destaca que, com a maioria democrata nas duas casas do Congresso, as comissões serão conduzidas por opositores que deverão focar a agenda externa nos países latino‑americanos, visto que a região representa um ponto de confronto potencial para a política externa americana nos próximos anos.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.