O economista André Lara Resende, um dos idealizadores do Plano Real, voltou ao centro do debate público ao divulgar, em setembro, um artigo intitulado “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”. No texto, o autor sustenta que o principal problema fiscal do Brasil reside no custo dos juros da dívida pública, e não nos gastos primários do governo, argumentando que, mesmo com resultado primário próximo do equilíbrio, a dívida continua a crescer porque o custo do financiamento supera o ritmo de expansão nominal da economia.

Para enfrentar a questão, Lara Resende propõe a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas coordenadas para as políticas fiscal e monetária em um horizonte de quatro a cinco anos. Segundo a proposta, o Banco Central passaria a operar com uma faixa de referência compreendida entre a meta de inflação, atualmente fixada em 3 %, e o crescimento nominal potencial da economia, estimado em cerca de 5,5 % ao ano. Na fase de transição, o órgão anunciaria a redução gradual da taxa Selic, que se encontra em 13,75 %, para 7,5 % ao ano em 12 meses. O cálculo da taxa incluiria, inicialmente, um adicional de segurança de dois pontos percentuais, a ser eliminado progressivamente. Para amortecer eventuais efeitos cambiais decorrentes da saída de capitais, a proposta prevê a utilização das reservas internacionais do Banco Central, que somam aproximadamente US$ 360 bilhões.

A publicação ganhou repercussão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, informou que Lara Resende teria um encontro marcado com Lula em Brasília nesta semana, no contexto das discussões sobre a orientação econômica do novo mandato. O artigo também recebeu apoio de membros do Partido dos Trabalhadores: a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT‑PR) e o coordenador do programa de governo da campanha de Lula, José Sérgio Gabrielli, elogiaram a proposta. Por outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou a possibilidade de adoção de um tabelamento dos juros e afirmou que não há reunião agendada entre o presidente e o economista.

André Lara Resende nasceu no Rio de Janeiro em 1951, filho do jornalista e escritor Otto Lara Resende. Formou‑se em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC‑Rio) em 1973, concluiu pós‑graduação na Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 1975 e obteve o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1979. Durante quase uma década foi professor na PUC‑Rio, período em que desenvolveu, ao lado de Persio Arida, a proposta de reforma monetária conhecida como Plano Larida (1984), que previa a criação de uma unidade monetária indexada para eliminar a memória inflacionária. O Plano Larida serviu de referência intelectual para o Plano Real, implementado em 1994, no qual Lara Resende integrou a equipe econômica ao lado de Arida, Edmar Bacha, Gustavo Franco e Pedro Malan.

A trajetória de Lara Resende inclui participação em outras decisões controversas da história econômica brasileira. Em março de 1990, no primeiro dia do governo Fernando Collor, foi adotado o bloqueio de valores superiores a NCz$ 50 mil em contas correntes, cadernetas de poupança e outras aplicações financeiras. Em entrevista concedida em 2005, Collor relatou que, em reunião preparatória realizada na casa de Mário Henrique Simonsen, Lara Resende teria defendido a necessidade de um choque de liquidez para conter a inflação, posição que, segundo o ex‑presidente, encontrou resistência política, mas acabou sendo implementada com a participação da então ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello e do futuro presidente do Banco Central, Ibrahim Eris.

O passado de Lara Resende foi utilizado pelo Partido dos Trabalhadores em 2014 para contestar sua participação na campanha presidencial de Marina Silva (PSB). Em setembro daquele ano, o PT publicou texto que o apresentava como “conselheiro de Marina que planejou o confisco da poupança por Collor”, relembrando também sua passagem pela presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 1998 e a crise dos grampos telefônicos que envolveu o processo de privatização da Telebrás. Na ocasião, gravações de conversas entre integrantes do governo foram divulgadas, suscitando suspeitas de pressão sobre fundos de pensão. Lara Resende deixou a presidência do BNDES, foi acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal e, em março de 2009, foi absolvido pela Justiça Federal.

Além da atuação no setor público, o economista ocupou cargos de direção e conselheiro no Banco Central (1985‑86) durante o governo José Sarney, trabalhou em instituições financeiras como Garantia, Unibanco e Matrix, e atuou como investidor. No governo de Fernando Henrique Cardoso, foi assessor especial da Presidência da República e, em 1998, assumiu a presidência do BNDES. Após deixar o cargo, foi professor visitante na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, e participou da fundação do Instituto de Estudos em Política Econômica da Casa das Garças, no Rio de Janeiro. Em 2022, integrou a equipe de transição do governo eleito de Lula.

As críticas de Lara Resende a juros elevados e ao que ele denomina “dogmatismo fiscal” não são recentes. Em janeiro de 2017, publicou no Valor Econômico artigo intitulado “Juros e conservadorismo intelectual”, questionando a relação tradicional entre juros e inflação e sugerindo que taxas persistentemente altas poderiam, em certas condições, alimentar a própria inflação. Em maio de 2019, voltou a abordar o tema em “Liberalismo e dogmatismo”, apontando os riscos de ajustes fiscais acelerados em economias com alto desemprego, citando a crise grega como exemplo. No mesmo período, criticou a política econômica do governo Jair Bolsonaro por subordinar o liberalismo a um rígido dogma fiscal, argumentando que tal postura poderia comprometer a democracia ao gerar insatisfação popular. Em 2020, reuniu essas reflexões no livro “Consenso e contrassenso: por uma economia não dogmática”.

A proposta de Lara Resende ainda não foi adotada pelo governo. O debate sobre a viabilidade de reduzir a Selic para 7,5 % ao ano, criar um conselho coordenador das políticas fiscal e monetária e utilizar reservas internacionais como amortecedor cambial segue em

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.