As eleições de meio de mandato realizadas na terça‑feira (3) entregaram a maioria dos assentos da Câmara dos Representantes e do Senado aos democratas, revertendo ganhos obtidos pelos republicanos nas eleições presidenciais de 2024 e evidenciando um desgaste do presidente Donald Trump a menos de dois anos de seu retorno à Casa Branca.

A vitória democrata se estendeu a estados tradicionalmente republicanos, refletindo a insatisfação de eleitores com o custo de vida e com as decisões de política externa, sobretudo a guerra contra o Irã. Em entrevista publicada na rede social Truth Social, Trump afirmou que aceitará os resultados das midterms e que seu nome “não estava na cédula de votação”, acrescentando que, se estivesse, “teríamos vencido de lavada”. Em declaração posterior, o presidente reconheceu que o conflito com o Irã influenciou a derrota de seu partido.

Vários republicanos já apontam Trump como responsável pelo revés. O candidato republicano ao governo do Maine, Bobby Charles, declarou ao portal Politico que, apesar da derrota, mantém otimismo porque “Trump não estará mais no cargo em dois anos”.

Pesquisas realizadas pela Reuters/Ipsos revelam que 48 % dos eleitores registraram o custo de vida como principal motivo de voto, enquanto 49 % consideram que a situação financeira de suas famílias piorou desde o início do segundo mandato de Trump; apenas 13 % apontam melhora. Na mesma pesquisa, 55 % dos entrevistados avaliaram que os resultados da operação militar contra o Irã não justificaram os custos, e 25 % discordaram. Outra sondagem da Reuters/Ipsos, divulgada em 9 de outubro, apontou que a maioria dos americanos vê as tarifas de importação adotadas pelo governo como fator que elevou os preços internos.

Especialistas atribuem parte do desgaste ao impacto econômico da guerra e das tarifas. Natali Hoff, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, destacou que a alta dos combustíveis, decorrente do conflito no Oriente Médio, e o aumento de preços de produtos importados agravaram a pressão sobre famílias que já enfrentavam dificuldades com alimentação, moradia e serviços. Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, afirmou que a guerra contra o Irã afetou diretamente o orçamento das famílias, tornando a política externa um tema central no debate eleitoral doméstico. Marco Aurélio da Silva, consultor de negócios internacionais e professor do Centro Universitário da Serra Gaúcha, interpretou o resultado como “uma cobrança direta por ajustes operacionais e pragmatismo”, ressaltando que a insatisfação econômica teve peso maior que questões identitárias ou de segurança.

O recuo republicano também se refletiu entre grupos que haviam sustentado a vitória de Trump em 2024. Uma pesquisa de boca de urna da Associated Press, com cerca de 80 mil eleitores, mostrou que sete em cada dez eleitores com menos de 30 anos apoiaram candidatos democratas à Câmara, enquanto no pleito presidencial de 2024 esse segmento havia dividido o voto entre Trump e a democrata Kamala Harris. Entre os latinos, 60 % votaram em democratas e 33 % em republicanos; em 2024, Trump havia conquistado aproximadamente 40 % desse eleitorado. O Pew Research Center registrou queda na aprovação de Trump entre latinos, de 93 % no início do mandato para 57 % recentemente, atribuindo parte da mudança à política migratória.

O senador estadual republicano Bill Clifford, em entrevista ao Politico, atribuiu a virada em três condados de maioria latina no sudoeste do Kansas às recentes operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Janet Murguía, presidente da UnidosUS, apontou que 27 % dos eleitores latinos consideraram a questão migratória e as ações do ICE entre as três principais preocupações, enquanto 58 % citaram custo de vida e inflação como fatores preponderantes. Galvão ressalta que, embora a mudança de comportamento desses eleitores mereça atenção, ainda é cedo para concluir que se trata de um afastamento definitivo do Partido Republicano.

Com o controle do Congresso, Trump enfrentará a necessidade de negociar com a oposição para aprovar medidas que dependam de recursos orçamentários. O presidente mantém o poder de veto, que, segundo projeções da imprensa americana, exigirá 290 votos na Câmara e 67 no Senado para ser derrubado. As estimativas apontam para 258 cadeiras democratas na Câmara (dos 435 totais) e 54 no Senado, além de dois independentes alinhados ao partido; assim, seriam necessários, no mínimo, 32 votos de deputados e 13 de senadores republicanos para anular um veto, caso todos participem da votação.

A nova composição legislativa também abre espaço para investigações sobre a administração Trump. Robert Garcia, que deve presidir o Comitê de Supervisão da Câmara, alertou os republicanos para “contratar um advogado” e anunciou intenção de investigar a família Trump, o Departamento de Segurança Interna (DHS), o ICE e a divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein.

Analistas concluem que, embora a tradição eleitoral americana preveja perdas para o partido no poder em eleições de meio de mandato, o resultado das urnas de 2026 oferece um diagnóstico mais amplo sobre o governo Trump, indicando pressões econômicas internas que podem influenciar a agenda externa e definir os rumos da sucessão republicana até a disputa presidencial de 2028.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.