O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para um quarto mandato, inicia o período com a necessidade de conciliar o cumprimento das promessas de campanha com um cenário fiscal desfavorável, juros elevados e sinais de desaceleração econômica. As contas públicas herdadas do atual governo já apresentam restrições que limitam a margem de manobra para ajustes de despesas e investimentos.

No orçamento de 2027, 91,3 % das despesas primárias já estão comprometidas com gastos obrigatórios, enquanto a dívida bruta atinge 82,9 % do Produto Interno Bruto (PIB). Os juros nominais pagos pelo setor público somaram R$ 1,18 trilhão nos últimos 12 meses, representando 8,86 % do PIB, segundo o Banco Central. As projeções de mercado apontam para um déficit primário de cerca de R$ 54 bilhões em 2027, embora o governo preveja superávit antes do pagamento dos juros. Se a trajetória atual se mantiver, a dívida bruta poderia alcançar 100 % do PIB em 2033.

A pressão sobre as contas públicas foi intensificada nas últimas semanas da campanha, quando o governo anunciou medidas de impacto bilionário, como o reajuste do Bolsa Família, a ampliação do programa Pé‑de‑Meia, novas linhas de crédito, a renegociação de dívidas, benefícios para microempreendedores e a proposta de transporte público gratuito nos fins de semana. Essas iniciativas aumentam o comprometimento de recursos e dificultam a contenção do endividamento.

Entre 2022 e agosto de 2026, a dívida bruta subiu de 71,7 % para 82,9 % do PIB. Caso continue a crescer mais rapidamente que a economia, uma parcela cada vez maior do orçamento terá de ser destinada ao pagamento de juros, reduzindo o espaço disponível para investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia, além de elevar a percepção de risco entre investidores.

A taxa básica de juros (Selic) encerra o terceiro mandato em 13,75 % ao ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tem projeção de 4,34 % para 2027, acima da meta de 3 % e próximo ao limite de tolerância de 4,5 %. O mercado estima que a Selic possa cair para 11,75 % ao final de 2027, mas a manutenção de juros elevados pode ser necessária caso a inflação não seja contida, o que impactaria o crédito e o investimento.

As projeções de crescimento do PIB para 2027 variam entre 1,32 % (Focus) e 0,9 % (IBRE/FGV). Elevar esse ritmo exigirá mais do que estímulos ao consumo, demandando soluções para problemas estruturais como baixa produtividade, infraestrutura insuficiente, burocracia, qualidade da educação, insegurança jurídica e dificuldade de atrair investimentos.

A inflação ainda pressiona a renda real. Em setembro de 2026 o IPCA registrou alta de 0,82 %, após queda de 0,32 % em agosto, acumulando 3,95 % no ano e 4,58 % em 12 meses, acima do teto de 4,5 % da meta. Alimentos e bebidas apresentaram alta de 0,88 % no IPCA‑15, com aumentos expressivos em itens como tomate, arroz, cebola e batata, afetando especialmente as famílias de menor renda.

O endividamento das famílias e das empresas também se mostra crítico. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) indica que 81,7 % das famílias estavam endividadas em setembro de 2026, 29,6 % encontravam‑se inadimplentes e 19,4 % comprometiam mais da metade da renda com dívidas. Programas de renegociação, como o Desenrola 3.0, podem aliviar a situação no curto prazo, mas não resolvem a causa estrutural de crédito caro decorrente da combinação de inflação, risco fiscal e juros reais elevados.

A reforma tributária do consumo, prevista para entrar em vigor a partir de 2027, pretende substituir PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS por um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, com a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e a regulamentação do Imposto Seletivo (IS). A transição exigirá adaptações nos sistemas das empresas e nos mecanismos de arrecadação dos entes federados, podendo gerar aumento de custos de adaptação, disputas federativas e incerteza para investidores.

O investimento brasileiro permanece abaixo dos níveis observados entre 2010 e 2013. A taxa de investimento — parcela do PIB destinada à formação bruta de capital fixo — foi de 16,8 % em 2025, praticamente igual a 16,9 % em 2024, e recuou para 16,5 % no primeiro trimestre de 2026. O espaço fiscal limitado, aliado ao crescimento das despesas obrigatórias e ao custo da dívida, impõe ao governo a necessidade de atrair capital privado por meio de concessões, parcerias público‑privadas, marcos regulatórios estáveis e segurança jurídica.

No comércio internacional, as exportações brasileiras atingiram US$ 348,3 bilhões em 2025, gerando superávit comercial de US$ 68,1 bilhões. Nos primeiros nove meses de 2026, a China respondeu por 29,7 % das exportações, totalizando US$ 84,7 bilhões, alta de 12 % em relação ao mesmo período de 2025. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com US$ 27,5 bilhões, mas sua participação caiu de 11,4 % para 9,6 % e as vendas ao mercado americano recuaram 6,5 %. A concentração nas exportações de commodities para a China expõe o país a oscilações de preços internacionais e à demanda chinesa, ao mesmo tempo em que o cenário global de protecionismo, subsídios e disputas geopolíticas aumenta a importância de acordos comerciais e da diversificação de mercados.

Por fim, transformar as políticas sociais em motores de crescimento sustentável constitui outro grande desafio. O governo precisará manter os avanços no mercado de trabalho e na renda, ao mesmo tempo em que evita que a inflação corroa esses ganhos e que a expansão fiscal comprometa a estabilidade macroeconômica.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.