As eleições legislativas de meio de mandato realizadas nesta terça‑feira (3) nos Estados Unidos definirão o controle da Câmara dos Deputados e do Senado a partir de janeiro de 2027, período que abrange os dois últimos anos da presidência de Donald Trump. Embora o presidente não esteja na cédula, o resultado determinará a capacidade de aprovação de sua agenda econômica, migratória e de segurança nacional e internacional.

A popularidade de Trump permanece baixa. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada na semana passada apontou que 32 % dos americanos aprovam sua gestão, contra 66 % que a desaprovam. Entre os eleitores registrados para o pleito, 47 % declararam preferência por candidatos democratas ao Congresso, enquanto 36 % optariam por republicanos. A insatisfação está associada à situação econômica, ao aumento dos preços e à guerra contra o Irã, que elevou o custo dos combustíveis.

Na Câmara dos Deputados, os republicanos ocupam 218 cadeiras, os democratas 214, há um deputado independente alinhado aos republicanos e duas vagas abertas – uma de cada partido – após renúncias. Para alcançar a maioria de 218 deputados, os democratas precisariam reconquistar a vaga deixada por um integrante do próprio partido e conquistar outras três atualmente ocupadas pelos republicanos. Os republicanos, por sua vez, bastaria manter ou ampliar a quantidade atual de deputados. No Senado, os republicanos detêm 53 das 100 cadeiras, os democratas 45, com apoio de dois independentes. A oposição precisaria de um ganho líquido de quatro cadeiras para chegar a 51 senadores. Os republicanos poderiam perder até três assentos e ainda manter o controle, pois, em caso de empate 50 a 50, o vice‑presidente J.D. Vance, também republicano, exercerá o voto de desempate. O novo Congresso tomará posse em 3 de janeiro de 2027, quase dois anos antes do término do mandato presidencial de Trump.

Caso os democratas conquistem a Câmara, poderão assumir o controle das comissões parlamentares, definir pautas de fiscalização e convocar membros do governo para prestar esclarecimentos, o que pode gerar dificuldades para a execução da agenda presidencial. O professor João Alfredo Lopes Nyegray, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, explicou que “como leis e recursos vão depender do Legislativo, quando um presidente perde a maioria em apenas uma dessas casas, isso já permite que a oposição bloqueie uma parte importante da agenda presidencial”. A maioria democrata na Câmara também facilitaria a imposição de condições ao orçamento federal, permitindo bloquear propostas de gastos e exigir concessões para a aprovação de verbas.

O cientista político Ross K. Baker, da Universidade Rutgers, acrescentou que a perda de qualquer uma das Casas pelos republicanos “dificultaria seriamente a aprovação de grandes projetos legislativos pelo governo Trump” e que “uma maioria democrata na Câmara já produziria uma ampliação das investigações sobre integrantes do governo”. Segundo a Associated Press, líderes democratas já apontam para possíveis investigações sobre negócios da família Trump, conflitos de interesse, operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) e a atuação do Departamento de Justiça no caso Jeffrey Epstein, além de questionar as operações militares dos Estados Unidos no Irã e na Venezuela.

As comissões parlamentares americanas podem convocar autoridades, exigir documentos e colher depoimentos, embora o governo possa contestar intimações alegando sigilo ou recorrer à Justiça, gerando disputas judiciais prolongadas. O pesquisador Max Yoeli, do think tank Chatham House, observou que “essas dificuldades podem limitar o alcance das investigações conduzidas pelos democratas”. No âmbito orçamentário, o controle da Câmara permitiria aos democratas bloquear projetos de gastos e condicionar a aprovação de recursos federais a negociações mais amplas com a oposição, embora decisões presidenciais dentro das atribuições legais, como certas tarifas e sanções, permaneçam mais difíceis de impedir.

A perda de controle do Congresso também pode abrir caminho para um novo processo de impeachment contra Trump. O líder democrata da Câmara, Hakeem Jeffries, declarou à Associated Press que não descarta “instrumentos de fiscalização” sobre o governo, mas não anunciou um novo impeachment como consequência das eleições. Nyegray ressaltou que, embora a Câmara possa aprovar um impeachment por maioria simples, a condenação exigiria dois terços dos senadores – 67 votos – tornando o apoio republicano essencial. Em janeiro, Trump advertiu que “vocês precisam vencer as eleições de meio de mandato, porque, se não vencermos, eles encontrarão um motivo para me submeter a impeachment. Vou sofrer impeachment”.

Se os democratas também conquistarem o Senado, a capacidade de Trump de confirmar secretários, embaixadores, autoridades federais e juízes, inclusive da Suprema Corte, seria reduzida, pois as indicações presidenciais precisariam ser aprovadas pelo Senado. O controle das comissões senadoras ampliaria a fiscalização sobre o Executivo. Contudo, o presidente ainda manteria o poder de veto, e a regra do filibuster, que exige 60 votos para encerrar a obstrução parlamentar, continuaria a limitar a aprovação de projetos legislativos.

O especialista em comércio internacional William Alan Reinsch, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), afirmou que, embora os democratas pudessem investigar as medidas do governo Trump e propor restrições aos poderes comerciais, “essas propostas legislativas, mesmo que aprovadas, não sobreviverão a um veto presidencial”. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou em outubro que “temos poderes tarifários muito sólidos”, indicando que a agenda tarifária de Trump permaneceria em grande parte protegida.

Um cenário considerado catastrófico para Trump seria a obtenção de 67 cadeiras no Senado pelos democratas, número suficiente para condená‑lo em um eventual processo de impeachment, desde que todos os senadores comparecessem e votassem unanimemente pela destituição.

Assim, o desfecho das eleições de meio de mandato de 2026 determinará o grau de influência que o Congresso terá sobre as políticas e decisões do presidente nos últimos dois anos de seu mandato, moldando o panorama político interno e a atuação dos Estados Unidos no cenário internacional.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.