O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu orientação do Ministério das Relações Exteriores para adotar uma postura pragmática em relação à fuga do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal do Rio de Janeiro, que chegou a Miami, nos Estados Unidos, sob suspeita de apoio dos governos americano e argentino.
Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno da eleição presidencial, descumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal que o proibia de deixar o país e desembarcou na manhã de quarta‑feira, 28, na cidade de Miami, na Flórida. A suspeita de auxílio externo ganhou força a partir de reportagem do The New York Times, que apontou que o jato particular que transportou o senador, sua esposa e as duas filhas foi providenciado por um funcionário da Casa Branca. Na tarde do mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Flávio havia recebido um “passe” para entrar no país.
Segundo a mesma reportagem, o trajeto incluiu voo da Argentina para o Equador, onde o avião fez escala para reabastecimento, antes de seguir para Miami. O voo foi realizado em um jato particular organizado por Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca, conforme relato de pessoa envolvida na logística da viagem.
Na terça‑feira, 29, o argentino Luis Grande, proprietário da empresa Baires Fly, responsável pelo transporte, declarou à agência France‑Press que o voo foi contratado e pago por um intermediário do setor aeronáutico, por meio de uma conta nos Estados Unidos. Grande afirmou em entrevista telefônica: “Fui contratado por um broker que conheço há dez anos, que vende voos e mora nos Estados Unidos”. O intermediário, que não teve a identidade revelada, teria transferido US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil) de uma conta de sua empresa em banco americano para um banco argentino.
Agentes de imigração dos Estados Unidos permitiram que Flávio e sua família ingressassem no território americano sob o regime de parole, autorização temporária geralmente concedida por razões humanitárias. O Departamento de Segurança Interna (DHS) informou que o senador e sua família foram recebidos e inspecionados pela agência Alfândega e Proteção de Fronteiras, em conformidade com as leis e procedimentos de imigração aplicáveis.
Um registro público do governo americano indica que Flávio apresentou ao chegar aos Estados Unidos um passaporte diplomático brasileiro já cancelado. O Departamento de Estado, por meio de representante, declarou que pretende emitir vistos para o senador e sua família, permitindo a entrada regular no país. O status de parole, concedido por “razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo”, permite que o indivíduo permaneça nos Estados Unidos enquanto é tratado como requerente de admissão.
Autoridades norte‑americanas apontam que Flávio pode, em algum momento, solicitar residência permanente – o green card – após a concessão de visto de imigrante. O processo poderia ser analisado de forma acelerada, como ocorreu anteriormente com Eduardo Bolsonaro, senador do Partido Liberal de São Paulo, que reside no Texas e mantém contato próximo com o assessor Jason Miller. Miller, que ocupa cargo de funcionário especial do governo americano, recusou‑se a comentar o assunto.
Dois dias antes da fuga, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal, proibindo o senador de deixar o país. O senador é alvo de dois inquéritos no Supremo e perderá o foro privilegiado em 31 de janeiro de 2027, ao término de seu mandato.
Na manhã de quinta‑feira, Lula se encontrou com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, antes de este embarcar para Atlanta, nos Estados Unidos, para participar da reunião de chanceleres do G‑20. O encontro tem como anfitrião o secretário de Estado norte‑americano Marco Rubio, considerado pelo governo brasileiro como o principal aliado da família Bolsonaro nos Estados Unidos e um dos influenciadores de Donald Trump contra Lula. Um embaixador, sob reserva, informou que Vieira provavelmente se encontrará com Rubio, embora não haja reunião oficialmente marcada.
O Itamaraty avaliou que o presidente deve deixar a questão da fuga de Flávio para a esfera judicial, evitando confrontos diretos com Trump ou com o presidente argentino Javier Milei, que ainda não reconheceu a vitória de Lula. Na mesma linha, o governo federal acredita que o “trumpismo” será enfraquecido nas eleições legislativas de meio de mandato – os midterms – previstas para a próxima terça‑feira, com expectativa de perda da maioria parlamentar do Partido Republicano no Congresso dos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro, em carta divulgada na quarta‑feira, autodenominou‑se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Na versão mais recente do documento, o termo foi substituído por “líder do Brasil”. O Partido dos Trabalhadores, por meio da Executiva Nacional, aprovou resolução nesta quinta‑feira, afirmando que a posição de Trump ao acolher Flávio nos Estados Unidos merece atenção.
Até o momento, declarações de Trump, que qualificou as eleições brasileiras como “uma vergonha”, não foram respondidas por Lula. Trump também afirmou que Lula lhe pediu para não intervir nas eleições brasileiras, acrescentando que acompanhou o pleito e o considerou vergonhoso.
A estratégia anunciada pelo presidente brasileiro indica que ele pretende deixar Flávio Bolsonaro e seus aliados falarem por si mesmos, sem envolver o Executivo em confrontos diplomáticos. Contudo, a situação pode atrasar a análise do agrément – consentimento oficial – ao deputado estadual Daniel Perez, indicado por Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Tribuna do Norte. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.
