A Polícia Federal apresentou, nesta quarta‑feira, o primeiro pedido de indiciamento no caso Master, apontando como réus o ex‑bancário Daniel Vorcaro, o ex‑presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, o ex‑sócio do Master Augusto Lima e mais 12 pessoas. O relatório, de quase 700 páginas, concentra‑se nas vendas de carteiras de crédito do Master ao BRB, operação que deu início à investigação. Nenhum político nem autoridade dos três Poderes foi incluído no pedido, apesar de nomes de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) terem sido citados em mensagens e documentos apreendidos.

A investigação, que se desenvolveu a partir da Operação Compliance Zero, avançou quase um ano depois da primeira fase. No documento, a PF descreve Vorcaro como líder de organização criminosa e lhe atribui os crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento a erro, fraude em fiscalização e lavagem de dinheiro. A defesa do ex‑bancário nega as acusações, classificando o indiciamento como precipitado. Costa foi apontado como principal agente de articulação institucional no BRB; sua defesa também refuta as imputações.

Os investigadores solicitaram ao ministro André Mendonça, relator da investigação, mais 60 dias para concluir diligências, perícias e a análise de documentos, registros bancários, dados fiscais e comunicações eletrônicas. Um segundo relatório, previsto para o início de novembro, deverá abordar a rede de sustentação dos supostos crimes e pode trazer à tona autoridades ainda não incluídas, com desdobramentos esperados até 2027.

A exclusão de ministros do STF do indiciamento decorre das prerrogativas do cargo e do entendimento institucional de que a PF não pode acusar magistrados sem autorização da própria Corte. Até o momento, as atuações dos ministros não foram investigadas; qualquer apuração dependeria de aprovação do STF.

Apesar da ausência de indiciamento, o caso trouxe à tona supostos vínculos entre Vorcaro e seis ministros da Suprema Corte. Mensagens e documentos sugerem relações diretas ou indiretas com Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli. Em relação a Moraes, foi identificado um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da esposa, além de mensagens em que Vorcaro teria perguntado ao ministro se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso. O ex‑bancário foi detido em 17 de novembro, quando se preparava para deixar o Brasil. A defesa de Moraes negou qualquer comunicação e classificou as alegações como falsas.

O filho de Luiz Fux, advogado, teria mantido contato com Vorcaro e orientado o banqueiro a encaminhar informações sobre um evento em Londres à secretária do pai no STF; o ministro nega qualquer troca de mensagens. Gilmar Mendes foi mencionado em contrato de prestação de serviços a um ex‑cunhado de Vorcaro e no financiamento de eventos promovidos pelo magistrado; ele afirma não ter irregularidades e já criticou publicamente Vorcaro. Kassio Nunes Marques teve seu nome associado a pagamentos ao filho advogado e a supostas festas privadas com acompanhantes pagas pelo ex‑bancário; o ministro nega vínculo financeiro e declara não ter julgado processos que pudessem beneficiar o Master. André Mendonça confirmou encontro com Vorcaro no início do ano passado para discutir precatórios, mas assegurou que não recebeu benefícios. Dias Toffoli, primeiro relator do caso, foi citado em relatório que tratava de transferências entre empresa de sua família e fundos ligados ao Master na compra de um resort de luxo; ele deixou a relatoria em fevereiro de 2026, negou irregularidades e declarou suspeição para julgamentos relacionados ao caso. Em setembro, o STF certificou os magistrados citados, mas ainda não definiu se autoriza investigação sobre suas condutas; a decisão cabe ao plenário.

Desde julho, quando foi concluída a última fase da Compliance Zero, a investigação sofreu um período de estagnação pública, com adiamentos sucessivos de depoimentos e ausência de novas diligências divulgadas. A PF informou que ainda há um volume significativo de documentos, contratos, operações financeiras e comunicações a serem examinados, além de pelo menos quatro linhas de apuração que investigam suspeitas de corrupção e eventual participação de agentes públicos na estruturação das operações.

O cerne da primeira fase do inquérito gira em torno da compra e venda de carteiras de crédito entre o Master e o BRB. Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o Master teria cedido ao banco público cerca de R$ 17,5 bilhões em créditos, dos quais, segundo a PF, R$ 12,2 bilhões corresponderiam a carteiras sem comprovação de existência. O esquema teria envolvido a aquisição, pelo Master, de créditos atribuídos a uma consultoria de capital reduzido, sem empregados e sediada em um coworking em São Paulo, e a revenda desses créditos ao BRB no dia útil seguinte. Dados do Banco Central indicam que o BRB comprou aproximadamente R$ 6,7 bilhões em créditos e os repassou por R$ 12,2 bilhões, gerando um ganho estimado de R$ 5,5 bilhões. O pagamento à consultoria permaneceu registrado em conta interna do Master, elemento que a PF interpreta como indício de lavagem de dinheiro.

Análises técnicas revelaram mais de um milhão de contratos vinculados a 348 mil CPFs, contendo 1 251 valores diferentes, com repetição de valores em escala que sugerem produção artificial das carteiras. Em amostra de cem cédulas de crédito bancário, os peritos não conseguiram comprovar a existência de nenhuma delas. O Master alterou a explicação sobre a origem dos créditos: em março de 2025 atribuiu‑as a duas associações de servidores da Bahia; em junho, passou a apontar a consultoria como fonte. Investigadores apontam que contratos, procurações e termos de consentimento com datas retroativas foram produzidos em massa para sustentar a nova versão, incluindo pasta que indica possível geração automática de até 2 700 procurações. A PF ainda precisa concluir a análise desses documentos e esclarecer quem participou da sua elaboração.

A defesa de Vorcaro classificou o indiciamento como “açodado e afoito”, alegando que a PF antecipou conclusões sem comprovação técnica, baseando‑se em leitura seletiva de mensagens e hipóteses não demonstradas. Segundo os advogados, as operações foram fundamentadas em decisões técnicas e colegiadas.

Com o pedido de indiciamento apresentado, a investigação do caso Master avança para novas fases, mantendo em aberto a possibilidade de inclusão de autoridades públicas nos próximos relatórios e prolongando o acompanhamento judicial até, possivelmente, 2027.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.