Senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) divulgou, ao chegar aos Estados Unidos, uma carta que reúne os argumentos que pretende apresentar ao governo americano para solicitar asilo político. No documento, o parlamentar acusa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de acionar uma “máquina de perseguição política do regime” logo após ele ter questionado o resultado da eleição presidencial realizada no domingo (25).
Na carta, Flávio relata que contestou a vitória de Lula alegando irregularidades na prorrogação do horário de votação, medida determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF. Ele afirma que fiscais do PL foram retirados da sala‑cofre de contagem dos votos entre 17h e 19h, período em que a totalização foi interrompida, e que isso configuraria fraude no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sete minutos depois da proclamação oficial do resultado pelo TSE, a Polícia Federal teria solicitado o cancelamento de seus passaportes para impedir que deixasse o país, medida inserida em uma investigação sigilosa sobre lavagem de dinheiro no STF e aceita pelo próprio ministro Moraes no mesmo domingo.
O senador descreve a situação como “o manual clássico de qualquer golpe de Estado”, afirmando que a perseguição política teria começado com seu pai, o ex‑presidente Jair Bolsonaro, e se estendido a milhares de brasileiros e a cidadãos americanos. Ele sustenta que não há mandado de prisão contra ele, mas que está sendo alvo de uma “caça às bruxas” com objetivo de mantê‑lo como refém e proteger juízes que, segundo ele, seriam corruptos.
Em entrevista concedida nesta quarta‑feira (28), Rogério Marinho (PL‑RN), coordenador da campanha de Flávio, corroborou a narrativa de perseguição. O senador afirmou que Flávio “é um exilado político, não por escolha”, e que “não lhe restou outra opção para manter sua integridade física, sua liberdade e sua capacidade de falar o que precisa ser falado, senão sair exilado do país”.
Segundo registros públicos do U.S. Customs and Border Protection (CBP), Flávio Bolsonaro entrou nos Estados Unidos via Argentina e recebeu autorização para permanecer no país por um ano. O sistema indica que ele foi admitido na categoria “DT”, de caráter humanitário, permitindo sua permanência legal com a família.
Especialistas em imigração consultados analisam que a concessão de asilo político ao senador é provável, considerando a consistência das alegações de perseguição e a inclinação do governo de Donald Trump a acolher pleitos de afinidade política. A legislação americana prevê que estrangeiro pode solicitar asilo ao demonstrar “temor fundado de perseguição” por motivo de opinião política, exigindo a distinção entre punição criminal legítima e abuso de poder motivado por convicções ideológicas.
A advogada Ana Barbara Schaffert, especialista em imigração nos EUA, explicou que Flávio poderia argumentar que o próprio Judiciário brasileiro atua como agente persecutório. Ela destacou que o requerente precisará provar que sua posição política foi “pelo menos uma das razões centrais” para as sanções aplicadas ou que a punição foi desproporcional.
O advogado criminalista André Fini Terçarolli, mestre em direito processual penal, sugeriu que a defesa do senador poderia apresentar a sequência cronológica dos atos – o pedido da Polícia Federal logo após a derrota eleitoral, a decisão de Moraes sem manifestação prévia da Procuradoria‑Geral da República e a utilização de um vídeo publicado pelo irmão como fundamento – para demonstrar instrumentalização do processo penal. Contudo, alertou que tais circunstâncias “não bastam automaticamente para caracterizar perseguição nos termos da legislação americana” e que a decisão dependerá da análise detalhada das provas.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, apontou que a decisão monocrática de Alexandre de Moraes, tomada imediatamente após a eleição, insere‑se em um contexto histórico de medidas restritivas contra a família Bolsonaro e a oposição, reforçando a narrativa de lawfare. Ele ressaltou que a afinidade ideológica entre o governo dos EUA e o presidente Donald Trump pode facilitar o pedido de asilo.
Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, avaliou que a concessão de asilo depende sobretudo da conveniência geopolítica de Washington. Segundo ele, Trump poderia ver no caso de Flávio um elemento de barganha nas relações com o Brasil, já que “dar asilo ao Flávio, ele ganha mais pontos para poder, em tese, negociar com o Brasil”.
A eventual concessão do asilo tem implicações diplomáticas. Schaffert observou que reconhecer a perseguição política implicaria um reconhecimento explícito de abusos estatais contra o senador, o que poderia afetar a imagem do Brasil e das suas instituições de justiça. Terçarolli acrescentou que tal decisão poderia abalar a credibilidade do STF, embora não constituiria uma sentença internacional contra o país. Coimbra enfatizou que a medida poderia manchar a reputação internacional de Lula e do STF, ao legitimar a tese de perseguição seletiva. Paz, por sua vez, considerou que o amplo reconhecimento internacional que Lula recebeu após a vitória pode limitar o impacto negativo da narrativa de perseguição.
No âmbito das relações bilaterais, os analistas preveem que a concessão de asilo poderia gerar fricção imediata entre Brasília e Washington, com possíveis restrições à cooperação jurídica e à extradição, bem como um esfriamento do diálogo institucional no curto prazo.
Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.
