O colapso do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, desencadeou uma crise financeira e política que culminou na apresentação de pedido de renúncia pelo presidente Santiago Peña, cuja votação foi interrompida por falta de quórum. Enquanto a Câmara dos Deputados não conseguiu decidir sobre a renúncia, o Senado deu início ao processo de impeachment contra o mandatário, que deve apresentar defesa ainda nesta sexta‑feira. Caso seja afastado, o vice‑presidente Pedro Alliana assumirá a Presidência, em meio a uma provável reconfiguração das alianças políticas no país.
A crise bancária começou quando o Banco Central do Paraguai decidiu intervir no Ueno Bank, medida aprovada na segunda‑feira e anunciada no dia seguinte. A intervenção suspendeu as operações da instituição, deixando correntistas sem acesso a salários e poupanças. O banco concentrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles aproximadamente US$ 380 milhões do Instituto de Previdência Social (IPS). A rápida expansão do Ueno Bank, que passou a contar com quase 3 milhões de clientes desde 2021 e incorporou o Visión Banco em 2024, contrastava com irregularidades detectadas pela fiscalização: empréstimos a empresas ligadas aos controladores, operações sem documentação suficiente e inconsistências no registro de ativos. Na revisão dos balanços, o Banco Central constatou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei, motivando o início do procedimento de resolução.
A paralisação gerou protestos nas ruas de Assunção, enquanto o Ministério Público abriu investigações contra o Ueno Bank e seus dirigentes. A Justiça determinou, nesta semana, a prisão preventiva de seis executivos do banco e a prisão domiciliar de outros dois investigados. Para mitigar os prejuízos aos correntistas, o Congresso aprovou, em regime de urgência, uma lei que autoriza a antecipação da devolução de recursos por meio do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD). A medida foi sancionada pelo presidente Peña no mesmo dia e, na quinta‑feira, iniciou a primeira etapa de pagamentos a clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis e sem dívidas com o Ueno Bank. O limite geral de garantia chega a 228,3 milhões de guaranis por depositante, embora ainda não tenha sido esclarecido quanto à recuperação total dos recursos públicos.
O escândalo atingiu diretamente o presidente, que manteve participação acionária em empresa vinculada ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025, quando alegou ter vendido suas ações. A oposição passou a questionar os depósitos de órgãos públicos no banco durante o governo de Peña e a apontar possíveis conflitos de interesse. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também renunciou na terça‑feira, a pedido de Peña, após críticas sobre a fiscalização bancária; Carvallo havia presidido a Financiera Ueno, antecessora do banco, antes de assumir a autoridade monetária em 2023. Peña negou irregularidades e afirmou não possuir mais participação na instituição; o próprio banco declarou que o presidente não era acionista ou investidor direto.
A crise financeira ganhou forte repercussão política na quarta‑feira, quando 35 deputados apresentaram pedidos de impeachment contra Peña e o vice‑presidente Alliana, alegando conflitos de interesse e omissões na fiscalização. O presidente do Partido Colorado, Cartes, também apoiou o afastamento de Peña, acompanhado por parlamentares governistas e dissidentes da legenda. Na Câmara, o impeachment contra o presidente foi aprovado por unanimidade, enquanto o contra Alliana foi rejeitado por 48 votos a 30. Uma tentativa de analisar a renúncia de Peña em sessão conjunta de deputados e senadores foi frustrada quando parlamentares governistas deixaram o plenário, impedindo a obtenção do quórum mínimo de 41 deputados. Assim, a votação da renúncia não foi concluída e o processo de impeachment seguiu ao Senado, que deve julgar o caso ao longo do dia.
Paralelamente, o procurador‑geral Emiliano Rolón Fernández determinou a abertura de investigação criminal para apurar a responsabilidade de Peña nas irregularidades envolvendo o Ueno Bank. Caso o Senado vote pela destituição, Alliana assumirá a Presidência até o término do mandato, previsto para agosto de 2028. Analistas apontam que o novo presidente deverá manter as principais diretrizes econômicas e internacionais adotadas por Peña, sobretudo a disciplina fiscal, a atração de investimentos estrangeiros e as relações com Estados Unidos e Brasil. Contudo, a diferença de perfil entre os dois mandatários pode influenciar a condução do governo: enquanto Peña tem formação predominantemente econômica, Alliana possui experiência nas negociações parlamentares e na estrutura partidária, tendo presidido a Câmara dos Deputados e o Partido Colorado antes de assumir a Vice‑Presidência.
Cezar Roedel, mestre em relações internacionais, destacou que o volume de recursos públicos administrados pelo Ueno Bank e as dúvidas sobre a independência da fiscalização bancária colocam em xeque a transparência e a segurança jurídica do sistema financeiro paraguaio, além de revelar possíveis conflitos de interesse entre o poder público e o setor privado. Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais, avaliou que, apesar da proximidade histórica de Alliana com Cartes, o futuro presidente precisará construir uma base de apoio própria no Congresso para governar com autonomia, sobretudo diante de eventuais divergências com o ex‑líder do partido. Roedel concluiu que a sucessão constitucional demonstra o funcionamento dos mecanismos institucionais do Paraguai, mas não elimina a crise política e institucional que o país enfrenta; a estabilidade de um eventual governo Alliana dependerá da capacidade de recuperar recursos públicos, concluir as investigações sobre o Ueno Bank e consolidar apoio legislativo.
Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.
