Raimundo dos Santos Nascimento, 62 anos, está entre os 13 821 candidatos ao Enem 2026 que têm mais de 60 anos. O carioca, residente na Ceilândia, Distrito Federal, frequenta o cursinho popular Jovem de Expressão (JEX) enquanto se prepara para o vestibular da Universidade de Brasília (UnB), onde pretende ingressar no curso de psicologia. Após viver cerca de seis anos em situação de rua no Plano Piloto, Raimundo retomou os estudos no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e concluiu o ensino fundamental na Escola de Meninos e Meninas do Parque (EMMP). Em 2020, fez o Enem e obteve 640 pontos na redação, o que o motivou a ingressar no JEX, que ele descreve como “um momento em que me sinto jovem”.

O Jovem de Expressão, com 17 anos de atuação, oferece preparação gratuita para o Enem, o Programa de Avaliação Seriada (Pas) da UnB e outros vestibulares. A unidade integra a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), composta por 1 535 centros que atendem mais de 58 000 estudantes da rede pública, priorizando negros, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e famílias com renda per capita de até um salário‑mínimo (R$ 1 621 em 2026). O objetivo da rede é ampliar o acesso ao ensino superior para jovens e adultos que enfrentam barreiras socioeconômicas e que não podem arcar com a educação privada ou conciliar horários tradicionais devido ao trabalho.

Entre os frequentadores do JEX estão Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, diarista que interrompeu os estudos há 20 anos e voltou a estudar por incentivo da filha, atualmente matriculada na faculdade. Márcia pretende cursar nutrição, embora não tenha alcançado a nota desejada no Enem do ano passado. Ela relata que o curso representa “um momento divisor de águas” e que a expectativa está “lá em cima”. Gilmara Pereira Braga, caixa de supermercado de 47 anos, concluiu o ensino médio em 2000 e, apesar do medo inicial de matemática, encontrou apoio nos professores do cursinho. Gilmara almeja estudar psicologia na UnB e trabalhar com educação especial, destacando a importância de profissionais que atendam crianças excluídas do sistema educacional.

Miguel Lacerda, produtor musical e DJ de 20 anos, está no JEX há dois anos e busca uma vaga universitária em ampla concorrência. Ele afirma que, como pessoa periférica, não teria condições de pagar outros cursinhos, tornando o JEX essencial para sua preparação. A estudante de 28 anos Azize Quemel, matriculada há dois anos, elogia políticas públicas que financiam iniciativas voluntárias de apoio a adultos historicamente marginalizados, ressaltando que o cursinho pré‑vestibular costuma ser inacessível para famílias de baixa renda.

A CPOP disponibiliza até R$ 163,200 por unidade selecionada para custear professores, coordenadores, apoio técnico‑administrativo e materiais. Rodrigo da Silva Soares, coordenador pedagógico da unidade da Ceilândia, explicou que, embora o cursinho seja voluntário, os recursos do Ministério da Educação (MEC) são fundamentais para manter a gestão, pagar despesas de voluntários, transporte, lanche e atividades de campo. Maria Paula Cândida Reis, apoiadora pedagógica, atua na organização da grade curricular, controle de frequência, reuniões e na condução de simulados e aulões de revisão. Ela destaca a diversidade de idades dos alunos e a troca de saberes como aspecto valioso do projeto, afirmando que “educação transforma e muda trajetórias”.

Para complementar o apoio acadêmico, a psicóloga Yasmin Moreira foi contratada para atender questões de ansiedade, sobrecarga de estudos e medo de reprovação. Em rodas de conversa, ela realiza escuta ativa para evitar desistências e reforça a necessidade de saúde mental entre jovens periféricos que buscam acesso ao ensino superior.

Além do financiamento institucional, o MEC concede auxílio‑permanência de R$ 200 mensais por seis meses a até 40 estudantes por instituição. Victória Santos, dançarina de hip‑hop de 16 anos, utiliza o benefício para custear despesas domésticas enquanto se prepara para o curso de artes cênicas na UnB, com a meta de se tornar professora. Azize Quemel, que retomou os estudos 11 anos após concluir o ensino médio, também recebe o auxílio, o que lhe permite manter a rotina de estudos e enfrentar imprevistos financeiros enquanto almeja bacharelado em audiovisual na UnB ou formação em produção cultural no Instituto Federal de Brasília (IFB).

O Enem 2026 será realizado em dois domingos, 8 e 15 de novembro. Em cada dia, as portas dos locais de prova abrirão às 12h, fecharão às 13h e as provas terão início oficial às 13h30, horário de Brasília.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Agência Brasil. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.