A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que tirou o partido da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, reacendeu o debate sobre a tradicional aliança entre Washington e Tel Aviv. O vice‑presidente JD Vance apontou que a relação com Israel foi um dos quatro fatores principais apontados por um consultor de confiança do partido como responsáveis pela perda das maiorias.

No mesmo dia da votação, o presidente Donald Trump comunicou, de forma inesperada para os aliados israelenses, a suspensão da ajuda militar anual ao país, estimada em US$ 3,8 bilhões, que havia sido prevista para se estender até 2028. O professor Bruno Huberman, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, interpretou a medida como sintoma de uma mudança nas relações bilaterais, destacando que o apoio militar dos EUA a Israel, iniciado na administração de John Kennedy, foi intensificado de maneira agressiva durante o primeiro mandato de Trump (2016‑2020).

Segundo o Conselho de Relações Exteriores, organização não governamental sediada nos Estados Unidos, Israel tem sido historicamente o maior beneficiário da assistência externa americana, sobretudo no campo militar. A entidade estima que, desde a fundação de Israel em 1947 até 2025, o país recebeu mais de US$ 300 bilhões em apoio dos EUA, dos quais US$ 224 bilhões correspondem a assistência militar – valor que supera em mais de duas vezes o segundo maior receptor, o Afeganistão, que acumulou US$ 113 bilhões.

O pesquisador Bruno Huberman, vinculado ao Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais da mesma universidade, ressaltou que o presidente democrata Joe Biden manteve o nível de ajuda durante a guerra na Faixa de Gaza, conflito classificado por especialistas como genocídio. O apoio continuado gerou uma série de manifestações em universidades norte‑americanas em 2024. Huberman afirmou que a assistência não contou com contrapartidas efetivas de Israel e que a compra de armamentos produzidos por empresas americanas foi duramente criticada pelos setores de esquerda do Partido Democrata, embora o governo não tenha alterado significativamente a política.

A eleição também marcou a vitória de Abdul El‑Sayed, primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos, representando o estado de Michigan. Durante a campanha, o candidato denunciou os gastos americanos com a ajuda militar a Israel. Em entrevista, El‑Sayed declarou: “Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”.

Para o professor Danny Zahreddine, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a decisão de Trump de suspender o repasse militar teria sido uma estratégia para impedir a eleição de El‑Sayed. Zahreddine explicou que a relação entre os Estados Unidos e Israel, antes vista como quase unânime entre os americanos, agora gera desconforto, sobretudo após o que ele descreve como o genocídio em Gaza, provocando um desgaste da imagem tradicionalmente favorável ao país do Oriente Médio.

Paulo Abraão, diretor‑executivo da Brazil Office Alliance, observou que a Casa Branca reconheceu o custo político da aliança com Israel. Segundo ele, isso não implica necessariamente um enfraquecimento da parceria estratégica, mas indica uma mudança relevante nas condições que sustentam o apoio. Abraão acrescentou que o apoio a Israel deixou de ser um consenso bipartidário e passou a gerar divisões eleitorais, geracionais e ideológicas, demonstrando que a política externa americana no Oriente Médio pode ser cobrada nas urnas.

Em nível municipal, a cidade de Providence, no estado de Rhode Island, aprovou, com cerca de 75 % dos votos, uma medida que obriga a administração local a cessar investimentos em países que praticam limpeza étnica, apartheid, ocupação militar ilegal ou genocídio. A proposta, apresentada pela Coalizão Providence Pela Palestina e apoiada pelo prefeito democrata David Morales, não citou Israel explicitamente, mas reflete a crescente pressão sobre políticas externas relacionadas a conflitos.

Em resposta ao comentário de Vance, o presidente israelense Isaac Herzog reconheceu a existência de sentimentos anti‑Israel nos Estados Unidos, afirmando que o país sempre buscou ser bipartidário, cultivando apoio tanto entre democratas quanto entre republicanos. Já o representante de Israel nas Nações Unidas, Danny Danon, rejeitou a análise de Vance que responsabilizava a derrota republicana nas eleições ao vínculo com Israel. Em entrevista à emissora i24News, Danon afirmou que “é muito fácil culpar Israel por tudo, mas não é esse o caso” e ressaltou a necessidade de prestar atenção às vozes críticas dentro dos próprios Estados Unidos.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Agência Brasil. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.