Famílias de Natal iniciarão, na segunda‑feira (2), a visitação ao Cemitério do Alecrim em homenagem ao Dia de Finados. O local, tombado pelo Decreto Municipal nº 9.541 em 1º de novembro de 2011, integra oficialmente o Patrimônio Histórico e Cultural da cidade e recebe, a partir da manhã deste sábado (31), o público para a tradicional prática de resgate afetivo aos túmulos de entes queridos.

Segundo o historiador Breno Câmara, o cemitério foi um dos primeiros marcos da expansão urbana da região que hoje corresponde ao bairro Alecrim. “Primeiro veio o cemitério, a necrópole, para só então vir o bairro Alecrim”, afirma, destacando que 2026 celebra 170 anos da fundação do cemitério, inaugurado em 1856, e 115 anos da criação do bairro, que se desenvolveu ao seu redor. Para o pesquisador, ambos “guardam parte da nossa relação histórica com a Natal Imperial e Republicana”.

A sepultura mais antiga ainda preservada no recinto pertence ao advogado Manuel Gabriel de Carvalho, falecido em 1872. Contudo, o cemitério abriga também figuras de destaque na história regional e nacional, como o escritor e advogado Câmara Cascudo, o ex‑governador Pedro Velho de Albuquerque Maranhão e parte de sua família, os padres Monte e João Maria, o ex‑presidente da República Café Filho, o ex‑prefeito Djalma Maranhão, o artista Newton Navarro, o médico Januário Cicco e túmulos vinculados ao contexto da Segunda Guerra Mundial.

Breno Câmara ressalta que cada jazigo “relata uma história da cidade ou do Brasil, que pode facilmente ser narrada”. Ele cita, por exemplo, Djalma Maranhão como referência para aulas de políticas públicas, Newton Navarro como ponto de partida para discussões sobre artes e Januário Cicco para a medicina. O historiador também destaca o papel da visitação de estudantes e idosos na manutenção da história oral viva.

Entretanto, o especialista aponta que o local recebe apenas “condição mínima de investimentos”. As estátuas de mármore encontram‑se danificadas há anos, as placas metálicas estão oxidadas, dificultando a identificação das sepulturas, e objetos de valor comercial foram saqueados. Apesar da limpeza das ruas e da possibilidade de receber visitantes, o historiador critica a falta de reconhecimento do poder público quanto ao potencial turístico do sítio, que vai além das tradicionais atrações de orla e dunas, envolvendo “o contato com a memória do lugar visitado”.

O historiador François Leite Cavalcante complementa a análise ao situar a criação do cemitério no contexto das preocupações higienistas do século XIX. Antes de sua construção, era comum enterrar os mortos dentro das igrejas ou em seus arredores, prática observada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, antiga catedral de Natal. Epidemias de cólera, varíola e febre amarela motivaram a obra, que foi inaugurada em 1856 em plena crise de cólera, segundo o pesquisador.

Cavalcante também chama a atenção para a arquitetura do cemitério, que revela, segundo ele, “a noção de diferentes classes sociais entre as famílias”. Ele observa que, ao contrário dos cemitérios contemporâneos, que tendem à igualdade entre jazigos, o Alecrim historicamente refletia a posição social dos falecidos, comparando a ostentação dos túmulos à dos faraós do Egito Antigo, que utilizavam pirâmides para exibir riqueza e poder.

Na manhã deste sábado, com o cemitério já aberto ao público, o eletricista e mecânico Antônio Alves Sobrinho limpava o túmulo de familiares de sua esposa. “Estou de folga, dá um pouco de trabalho, mas tudo que é feito com carinho e determinação, há um êxito”, declarou ao ser questionado sobre a atividade.

A visitação de finados, prevista para a próxima segunda‑feira, reunirá moradores, estudantes e interessados na história de Natal, ao mesmo tempo em que evidencia a necessidade de maior investimento e preservação do patrimônio cultural representado pelo Cemitério do Alecrim.

Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Tribuna do Norte. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.