O Circuito das Águas Paulista, reconhecido como um dos principais centros de produção de cachaça artesanal no país, reúne cerca de 350 produtores, porém apenas 15 estão regularizados perante o Ministério da Agricultura, de acordo com a Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista (APCCAP). Recentemente, a região recebeu a Indicação de Procedência (IP), selo que certifica a origem da bebida e que os produtores esperam transformar em maior credibilidade, valor agregado e impulso ao turismo rural.
A certificação tem sido apontada como fator de fortalecimento da atividade turística ligada à gastronomia, com a oferta de guias e degustações que atraem visitantes interessados em conhecer os alambiques da região. “Quando o visitante chega ao Circuito das Águas e sabe que está consumindo uma cachaça com origem certificada, a experiência ganha outro significado”, afirmou Jorge Luís Benedetti, presidente da APCCAP e sócio da Fazenda Benedetti. Ele destacou ainda que o selo tem movimentado hotéis, restaurantes, feiras e lojas, gerando empregos diretos e indiretos.
A história da Fazenda Benedetti remonta ao final do século XIX, quando a família, originária da província de Trento, no norte da Itália, imigrou para o Brasil e se estabeleceu em Amparo e Serra Negra, interior de São Paulo. Inicialmente envolvida na cafeicultura, a família adquiriu, na crise de 1929, um engenho para processamento de cana‑de‑açúcar e um alambique de cobre com capacidade para 80 litros como parte do pagamento de uma dívida. A produção, que começou para consumo próprio, passou a ser vendida aos vizinhos e, ao longo das décadas, ganhou reputação regional.
Na quarta geração, a Fazenda Benedetti produz cachaças brancas e envelhecidas em barris de diferentes madeiras – umburana, bálsamo, carvalho europeu, americano e francês, cabreúva, louro‑canela e amendoim – ressaltando que cada tipo de madeira confere ao destilado notas, aromas e complexidades únicas. A propriedade já recebeu reconhecimentos em âmbito regional, nacional e internacional.
Para ampliar a visibilidade da produção local, no ano passado foram criadas as Rotas da Cachaça de São Paulo, que integram 11 alambiques distribuídos em Amparo, Monte Alegre do Sul, Piracaia, Serra Negra e Socorro. O itinerário reúne pequenos produtores que preservam a tradição da cachaça autoral, valorizando o clima, a qualidade da cana e os saberes transmitidos entre gerações. “Os alambiques guardam histórias e modos de fazer que ajudam a contar a formação dos territórios”, disse Benedetti, acrescentando que a integração aos roteiros turísticos estimula a circulação entre os municípios, a compra direta e a distribuição dos benefícios econômicos.
A secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, Ana Biselli, ressaltou que a rota amplia as experiências para quem visita o estado e fortalece os pequenos negócios, desde a hospedagem até a gastronomia.
Entre os participantes da rota está a Cachaças da Torre, localizada no bairro Areia Branca, em Amparo. A empresa, fundada há 28 anos, é dirigida por Viviane Baldin, que atua no setor há 21 anos e ocupa a vice‑presidência da APCCAP. A produtora cultiva a própria cana‑de‑açúcar e elabora uma cachaça branca que serve de base para uma linha de 30 produtos, incluindo licores cremosos à base de frutas e leite, como jabuticaba, banana, cambuci, maracujá e figo. Na fermentação, a empresa utiliza levedura selecionada para garantir sabor, características sensoriais e padronização à destilação. Baldin afirmou que a cachaça sustenta sua família e que, ao longo do tempo, a busca por informações sobre plantio, produção e qualidade transformou a empresa em referência, acumulando mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais.
Entretanto, os produtores apontam desafios que ainda limitam o pleno desenvolvimento do setor. Entre eles, a elevada carga tributária, a concorrência com a produção industrial em larga escala, a clandestinidade de parte da atividade e a dificuldade de acesso a mercados mais amplos. Baldin destacou ainda a escassez de mão de obra qualificada e o alto custo de análises laboratoriais e equipamentos. “É necessário ser legalizado perante o Ministério da Agricultura, ter autorização oficial para a venda, trazendo segurança ao consumidor”, afirmou, ressaltando que a IP certifica a tradição e abre portas para áreas exclusivas de comercialização.
Benedetti concluiu que a autenticidade permanece como caminho para o futuro da cachaça artesanal da região. “A cachaça não é apenas uma bebida, mas um motor econômico e cultural que sustenta famílias, preserva tradições e coloca o nome da região no mapa”.
Texto jornalístico elaborado com apoio de IA, com base na reportagem de Gazeta do Povo. Consulte a fonte original para possíveis atualizações.
